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Espécies de bivalves sem olhos podem detectar mudanças na luz: espécies sem ocelos — estruturas visuais primitivas — chegaram a expressar até nove tipos de opsinas, proteínas ligadas à captação de luz, segundo estudo com participação da Universidade de São Paulo (USP) divulgado pela Agência FAPESP em 21 de outubro de 2026. A pesquisa analisou 17 espécies de moluscos bivalves, incluindo animais coletados em São Sebastião, no litoral de São Paulo, e aponta para um sistema de fotopercepção na margem do manto, região externa do corpo mais exposta à luminosidade.
O resultado amplia o conhecimento sobre como esses animais respondem ao ambiente sem necessariamente formar imagens. Conforme a Agência FAPESP, a retina humana usa cinco tipos de opsinas visuais para a formação da visão, enquanto bivalves desprovidos de ocelos podem produzir um repertório maior dessas proteínas. A comparação, porém, não significa que ostras e mexilhões enxerguem melhor que humanos: detectar luz e construir uma imagem são processos biológicos diferentes.
Estudo examinou 17 espécies de todas as cinco ordens de bivalves
A investigação foi publicada na revista Proceedings of the Royal Society B e reuniu espécies de todas as cinco ordens de bivalves. Nove espécies foram coletadas em São Sebastião; outras três vieram dos Estados Unidos; e cinco foram incluídas a partir de dados depositados em bancos públicos por pesquisas anteriores, de acordo com a Agência FAPESP.
Os pesquisadores removeram os ocelos ou a margem do manto dos animais e submeteram os tecidos ao sequenciamento transcriptômico. A técnica permite identificar genes que estão sendo expressos em determinada região do organismo. Nesse caso, o objetivo foi verificar quais opsinas apareciam nos tecidos associados à recepção de luz.
O artigo científico listado no PubMed informa que a equipe produziu transcriptomas de 12 espécies e analisou dados de RNA de outras cinco. Segundo o resumo do estudo, os pesquisadores classificaram as opsinas encontradas nos olhos e na margem fotossensível do manto, além de testar se a diversidade dessas proteínas tinha relação com a presença de olhos ou com a mobilidade dos animais.
Bivalves com ocelos tiveram de 5 a 12 tipos de opsinas
De modo geral, a análise indicou que bivalves com ocelos expressam mais opsinas do que espécies sem essas estruturas. Nos animais com ocelos, o repertório variou de cinco a 12 tipos; entre os que não têm ocelos, foram identificados até nove. A tendência, contudo, não vale para todos os casos examinados.
A Agência FAPESP cita como exemplo Barbatia candida, espécie que possui ocelos e expressa cinco opsinas. Já a ostra-do-pacífico, Magallana gigas, não tem ocelos, mas apresentou nove tipos dessas proteínas. Para Jorge Audino, primeiro autor do estudo, esse resultado indica que os fotorreceptores de animais sem olhos não devem ser subestimados, pois podem participar de funções dependentes da luz ainda pouco investigadas.
As opsinas são proteínas fotorreceptoras presentes em diferentes grupos animais. Elas participam da detecção de estímulos luminosos, mas não atuam exclusivamente na visão. Em humanos, além das opsinas da retina, há proteínas desse grupo expressas na pele. A reportagem da Agência FAPESP menciona estudo de 2020 que associou opsinas cutâneas humanas a processos como cicatrização, crescimento de pelos e respostas ao envelhecimento provocado pela luz solar.
Mais opsinas não significam capacidade maior de formar imagens
A formação de imagens exige mais do que proteínas sensíveis à luz. Segundo a explicação apresentada à Agência FAPESP, a visão depende também da organização do órgão responsável por receber e processar os estímulos luminosos, com estruturas capazes de regular a entrada de luz e ativar grande número de células fotorreceptoras.
Nos bivalves, a exceção mencionada são as vieiras, como a espécie norte-americana Argopecten irradians, cujos ocelos podem gerar imagens de baixa resolução. Para a maior parte dos bivalves, porém, a presença de opsinas indica capacidade de perceber variações de intensidade ou direção da luz, e não a construção de imagens semelhantes às produzidas pela retina humana.
O resumo do artigo científico também aponta que olhos de bivalves, em geral, expressam mais opsinas do que tecidos fora dos olhos, e que diferenças de mobilidade entre as espécies não influenciaram o repertório dessas proteínas. Os autores sustentam que os resultados ajudam a identificar opsinas usadas tanto em funções visuais quanto na fotopercepção dérmica, mas as funções específicas de parte desse sistema ainda precisam ser investigadas.

